G A R O T A S

Dora Pellegrino + Tuca Sodré

abertura: 5ª feira, 13/08, às 18h

curadoria de Paulo Venancio Filho

GAROTAS

Dora Pellegrino e Tuca Sodré

Elas não são garotas. Nem pretendem se fazer de garotas. Não querem se parecer com garotas. Tão pouco buscam a nostalgia de terem sido garotas. O que reconheço aí, nessas duas pintoras tardias, é a reinvindicação de um atrevimento; por que não pintar? Por que não colocar na tela, no desenho, inquietações, memórias, dores, prazeres, passados e atuais, enfim, tudo que fez, faz, fará (?) parte da vida. E isso não é o exercício de exorcismo catártico que poderia ser. São explosões ou implosões vivenciais que o gesto de pintar realiza sem qualquer outra pretensão do que manifestar um ato de satisfação; posso pintar, seja o que for, posso pintar; não me censuro, não estabeleço um programa; pinto o que quero pintar. Isso pode parecer ingenuidade, voluntarismo; que seja; mas é uma atitude de valor, despudorada, que rompe, até sem querer, com certo ambiente programado da arte e da pintura atuais. Sem serem revoltadas, não obedecem a ninguém. Ser garota é um momento de emancipação feminina que, creio eu, se repete aqui na maturidade – é o que vejo nessas telas. De fato são elas que estão ali. Sinceridade pode parecer e é muitas vezes uma palavra piegas, aqui não. É como elas encaram a pintura, sem medo, mas também com todas as incertezas de que poderiam estar fazendo confortavelmente outra coisa e não estão. Garotas são inconformadas. Aqui elas revivem um impulso que, há muito, poderia estar ou ter sido proibido, negado, obliterado, suprimido. Garotas é um despertar.

Paulo Venancio Filho

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